Acréscimo de Misericórdia
Diferentes aflições dominam o coração do homem. Sabemos que a felicidade não é deste mundo, o que quer dizer que as dores morais e os sentimentos de angústia e desequilíbrio provenientes da vaidade, do ciúme, da inveja, do orgulho e do egoísmo são comuns a todos os seres encarnados e desencarnados. Sentimentos que se originam, em maior ou menor escala, nas imperfeições e paixões inferiores que ainda habitam o espírito do homem.
A intensidade e a natureza das dores que abatem os homens dependem, entretanto, da postura que assumem diante da vida. Quando reagimos, quando nos revoltamos ou nos desesperamos, sofremos mais. Aquele que entende, compreende e percebe que ainda é pequeno, falho ou imperfeito, prepara-se e habilita-se para enfrentar, cicatrizar e curar suas chagas e feridas milenares, frutos da indisciplina e da leviandade frente à Criação. Dependendo da vida que se leva, a percepção dessas verdades chega para cada um em momentos e intensidades diferentes.
Grande parte de nós foi criada, desde o berço, em religiões outras que não o Espiritismo. Alguns éramos católicos apostólicos romanos, outros protestantes, judeus e budistas. De uma forma ou de outra, a vida ensina, através das dores e aflições que batem à porta de todos quando menos se espera. É nessas ocasiões que, não sabendo para quem apelar, lembramo-nos e procuramos a ligação com o Criador, buscando Dele, o amparo para a dor que sentimos, o bálsamo para a angústia que nos pressiona e maltrata, trazando desequilíbrio e aflições. Mas, às vezes, buscamos e não encontramos em nossa crença original, frequentemente baseada em ações exteriores, o consolo de que necessitamos para vencermos nossas vicissitudes. Não percebemos que Deus está em nós!
Diversas pessoas são atraídas para a Casa Espírita nessas circunstâncias. Movidas pela dor, pela angústia, pelo sofrimento moral. Muitas chegam como se lá fosse o local onde o milagre exterior haveria de ocorrer, suas dores haveriam de sumir e tudo aquilo de que necessitam, na percepção que têm do mundo material, haveria de ser resolvido.
Com o decorrer do tempo, de reunião em reunião, vão aprendendo outros valores e entendendo, dentro da pureza do Evangelho de Jesus, a verdade que não foram capazes de enxergar em outras situações.
Há outros que, de forma diferente, são atraídos para o Espiritismo pela curiosidade em relação aos fenômenos mediúnicos. Acham tudo maravilhoso, sobrenatural, e buscam a Casa Espírita para presenciar ou testemunhar a existência de fenômenos de intercâmbio com a Espiritualidade. A partir daí, entretanto, também têm a oportunidade de ouvir, refletir e aprender os valores imperecíveis do Espírito e a necessidade de fraternidade e amor. A luz se faz a partir de mera curiosidade, ampliando o horizonte de percepção da verdade. Isto é o que importa na Religião Espírita! Fazer o homem pensar em sua natureza e em sua missão, para agir fraternalmente no mundo em que vive.
O que o Espiritismo deseja é a transformação do homem pela ampliação de sua capacidade de perceber a verdade, na luta interior consigo mesmo, diante de suas próprias vicissitudes. As mensagens de Jesus estão nos mostrando que, a cada instante, devemos ser capazes de perceber o caminho à ser trilhado, mesmo que ainda estejamos ligados a velhos hábitos. Devemos desenvolver a capacidade de discernir sobre o modo de atingir aquela porta estreita de que nos fala o Evangelho, através de ações regeneradoras e serviços de boa vontade.
Muitos são os companheiros que se aproximam da Casa Espírita com a predisposição de serem trabalhadores efetivos. Aí têm a oportunidade de estudar com certa profundidade as verdades do Evangelho. À luz da fé raciocinada e da lógica, aprendem que todos somos Espíritos livres, evoluindo através de reencarnações sucessivas e colhendo as consequências das nossas próprias ações. Aprendem que a todos foi mostrado o mesmo caminho, amor e caridade, e dado autonomia de curso por meio do livre-arbítrio e da vontade própria para segui-lo conforme forem capazes de sentir e perceber.
Na Casa Espírita, temos a oportunidade de estabelecer com o plano espiritual o intercâmbio adequado. Não apenas para estudar, observar e testemunhar o fenômeno mediúnico, que é natural, e sim para que esse possa ser aprendido e usado com vistas a trazer benefício àqueles irmãos, encarnados ou desencarnados, que ainda se encontram presos aos grilhões da ignorância.
O mundo material vive mergulhado no Mundo Espiritual. Neste, muitos são os irmãos desencarnados que ainda não percebem sua verdade, mantendo-se em estado de ilusão voluntária, buscando sorver os fluidos materiais grosseiros a que se habituaram e que pensam ser ainda necessários para a continuidade de suas vidas. Por isso, a maior parte das Casas Espíritas organiza reuniões de desobsessão, onde entidades sofredoras são atraídas e chamadas para esclarecimento e atendimento adequados.
Nessas reuniões, irmãos nossos são esclarecidos para perceberem seu estado atual, para que entendam e aceitem que já desencarnaram e para que compreendam que devem continuar a caminhada sem se deterem junto ao mundo material. Muitos desses Espíritos não têm ainda a exata noção de como estão e perambulam pelas ruas, tentando-se comunicar com as pessoas, tentando continuar a vida material, quando na realidade já se desprenderam de seu corpo físico. Muitos comparecem à Casa Espírita com fortes sentimentos de revolta contra desafetos a quem responsabilizam pelos seus sofrimentos. Precisam de ajuda para que o perdão se dê e o amor se faça. Precisam de amparo para que possam recomeçar a reconstruir aquilo que deixaram inacabado rumo à perfeição da Criação.
A oportunidade que irmãos dotados de mediunidade recebem quando trabalham no bem foge à percepção humana. Como todos somos imperfeitos todos somos devedores e, por meio da mediunidade, podemos resgatar fracassos e falhas do pretérito. A mediunidade é sempre uma oportunidade de reparação. Assim, que ninguém se sinta vaidoso porque se encontra dotado deste ou daquele dom mediúnico. A mediunidade é, antes de tudo, uma oportunidade que Deus em sua infinita bondade, concede como acréscimo de misericórdia. O trabalhador dessa seara não deve julgar quem quer que seja, encarnado ou desencarnado, nem deve querer mudar a justiça, interferindo nos desígnios de Deus.
(Jonas, O Contador de Histórias)
Nenhum comentário:
Postar um comentário