Caridade e o Sonho de um Quarto
A simplicidade de muitos moradores de favela transforma seus vizinhos em comadres e compadres, que nos infortúnios se auxiliam, e nas vitórias bebem e comemoram juntos. Virtudes essas que muitos de nós não percebemos ao olharmos aqueles moradores com mãos calejadas, roupas sujas, e olhos tristes, sofridos…
Dona Dair era mãe de quatro filhos. Seu barraco, deixado pelo marido falecido, não era dos piores, sendo feito de tijolos sem reboco e cobertos por telhas de amianto. Eram dois cômodos, uma cozinha que servia de sala e um quarto de dormir. Ela vivia pedindo:
Seu Ivan, me arruma material para fazer mais um cômodo; os meninos estão grandes, fica difícil amontoar tudo num quarto só.
Dona Dair, este bairro tem mais de oitocentos barracos e mais da metade encontra-se em situação pior do que a sua. Nós não temos condições de atender todo mundo, tenha paciência!
No mês seguinte, o pedido era o mesmo. E, assim, se passaram vários meses.
Certo dia, passando por lá, encontramos na casa outra senhora com mais quatro filhos menores de doze anos e, ao ver Dona Dair, lhe perguntamos:
O que aconteceu?
Minha comadre Néia brigou com o marido e estava dormindo debaixo da ponte com as crianças. Então, chamei-a com os filhos para virem morar aqui.
Mas Dona Dair, a casa da senhora não dava nem para cinco pessoas, e agora com dez?
Ah!, seu Ivan, não podia deixar minha comadre dormindo na rua…
Tudo bem Dona Dair, a senhora vai ganhar um quartinho para ajudar sua comadre!
Em reunião com voluntários do Núcleo Espírita Irmã Scheilla, de Londrina, elaboramos uma lista de doadores e explicamos a cada um essa situação. Como todos se prontificaram a colaborar, conseguimos o dinheiro necessário para o material. Dona Dair organizou então um mutirão para a construção do seu novo quartinho.
Passados quatro meses, um dia visitando aquela família, observamos que a casa não estava mais tão cheia de crianças e indagamos:
Onde está sua comadre, Dona Dair?
Ela se acertou com o marido e agora está vivendo bem. Voltou para a casa dele.
Três anos depois…
Pensávamos que D. Dair não voltaria mais, pois havia arrumado novo companheiro. Ficaram juntos menos de dois anos, época em que ela deixou de buscar a cesta básica.
Depois, ela recomeçou a frequentar o Núcleo Espírita com mais um filhinho, de vez em quando precisando de algo.
No fim de julho, fomos agraciados com o seguinte bilhete:
“Aos Voluntários. Estou escrevendo este bilhete para agradecer os senhores e todos os que me ajudaram quando eu mais precisei. Os senhores fizeram como sempre eu gosto de fazer: fazer o bem e não olhar a quem. Deus abençoe todos vocês! Meus parabéns pelo dia dos pais. Quando a gente não pode ajudar o próximo, vale também uma palavra amiga que ajuda muito o espírito da gente. Deus abençoe todos vocês de coração!”
Pelo seu desprendimento e solidariedade, Dona Dair, sem esperar nenhuma recompensa, foi premiada com o quarto que tanto sonhara.
Os voluntários do Núcleo Espírita Irmã Scheilla, de Londrina, em reunião, concluímos que nenhum de nós teria coragem de levar uma família para a nossa casa, principalmente se a casa não comportar mais ninguém. C
Como disse Kardec, ao comentar a passagem do óbulo da viúva: “Todo aquele que sinceramente deseja ser útil a seus irmãos, ocasiões encontrará de realizar o seu desejo”.
A oportunidade de uma palavra amiga a alguém triste ou sem ânimo, oportunidade de uma prece silenciosa para um chefe grosseiro ou para um colega magoado com outra pessoa, uma compreensão a mais para um parente difícil, e outras oportunidades passam por nós e não as aproveitamos, depois lamentamos falta de dinheiro ou de tempo para fazer o bem.
No caso de Dona Dair, ela além de repartir o pouco que tinha, praticou também a caridade moral, eis que acolheu, com amor, no seio do seu lar, uma família com todos os seus problemas e dificuldades.
(Ivan Dutra-Sementes Para Um Mundo Melhor)
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