Código Penal da Vida Futura II
13º A duração do castigo está subordinada à melhoria do Espírito culpado. Nenhuma condenação, por tempo determinado, é pronunciada contra ele. O que Deus exige para por termo aos seus sofrimentos, é uma melhoria séria, efetiva, e um retorno sincero ao bem.
O Espírito é, assim, sempre, o árbitro da sua própria sorte; pode prolongar os seus sofrimentos pelo seu endurecimento no mal, abrandá-los ou abreviá-los por seus esforços para fazer o bem.
Uma condenação, por um tempo determinado qualquer, teria o duplo inconveniente ou de continuar a ferir o Espírito que teria se melhorado, ou de cessar quando este ainda estaria no mal. Deus, que é justo, pune o mal quando ele existe; e cessa de punir quando o mal não existe mais; ou, se se quer, sendo o mal moral, por si mesmo, uma causa de sofrimento, o sofrimento dura tão longo tempo quanto o mal subsista; a sua intensidade diminui à medida que o mal se enfraquece.
14º Estando a duração do castigo subordinada ao melhoramento, disso resulta que o Espírito culpado que não se melhora nunca, sofrerá sempre, e que, para ele, a pena seria eterna.
15º Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é a de não ver o termo de sua situação, e de crer que sofrerão sempre. É, para eles, um castigo que lhes parece que será eterno.
16º O arrependimento é o primeiro passo para a melhoria; mas só ele não basta, é preciso, ainda, a expiação, a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.
O arrependimento abranda as dores da expiação, no que traz a esperança e prepara os caminhos da reabilitação; mas unicamente a reparação pode anular o efeito, em destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.
17º O arrependimento pode ocorrer em qualquer parte e em qualquer tempo; se é tardio, o culpado sofre por mais tempo.
A expiação consiste em fazer o bem àquele a quem se fez o mal. Aquele que não reparar os seus erros nesta vida, por impossibilidade ou má vontade, se reencontrará, numa existência ulterior, em contato com as mesmas pessoas que tiveram do que lastimar dele, e em condições escolhidas por ele mesmo, de maneira a poder provar-lhes o seu devotamento, e fazer-lhes tanto bem quanto lhes haja feito de mal.
Nem todas as faltas acarretam um prejuízo direto e efetivo; nesse caso, a reparação se cumpre: fazendo o que se devia fazer e não se fez, cumprindo os deveres que foram negligenciados ou desconhecidos, as missões em que se faliu; praticando o bem em sentido contrário àquilo que se fez de mal; quer dizer, sendo humilde onde se foi orgulhoso, brando onde se foi duro, caridoso onde se foi egoísta, benevolente se foi malévolo, trabalhador se foi preguiçoso, útil se foi inútil, moderado se foi dissoluto, de bom exemplo se deu maus exemplos, etc. É assim que o Espírito progride, aproveitando o seu passado.
18º Os Espíritos imperfeitos estão excluídos dos mundos felizes, onde perturbariam a harmonia; permanecem nos mundos inferiores onde expiam as suas faltas pelas tribulações da vida, e se purificam das suas imperfeições, até que mereçam se encarnar nos mundos mais avançados, moral e fisicamente.
Se se pode conceber um lugar de castigo circunscrito, é nesses mundos de expiação, porque é ao redor desses mundos que pululam os Espíritos imperfeitos desencarnados, à espera de uma nova existência que, lhes permitindo reparar o mal que fizeram, ajudará o seu adiantamento.
19º Tendo o Espírito o seu livre-arbítrio, seu progresso é, algumas vezes, lento, e sua obstinação no mal tenaz. Pode nisso persistir por anos e séculos; mas chega sempre um momento no qual a sua teimosia, em afrontar a Justiça de Deus, se dobra diante do sofrimento, e no qual, malgrado a sua fanfarrice, reconhece a força superior que o domina. Desde que se manifestam nele os primeiros clarões do arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança.
Nenhum Espírito está em condições de não se melhorar nunca; de outro modo, estaria fatalmente destinado a uma eterna inferioridade, e escaparia da lei do progresso que rege, providencialmente, todas as criaturas.
20º Quaisquer que sejam a inferioridade e a perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm o seu anjo guardião, que vela por eles, espreita os movimentos de sua alma, e se esforça em suscitar, neles, bons pensamentos, o desejo de progredir e de reparar, numa nova existência, o mal que fizeram. Entretanto, o guia protetor age, o mais frequentemente, de maneira oculta, sem exercer nenhuma pressão. O Espírito deve se melhorar em razão da sua própria vontade, e não em consequência de um constrangimento qualquer. Age bem ou mal em virtude do seu livre-arbítrio, mas sem estar fatalmente impulsionado num sentido ou no outro. Se fez mal, sofre-lhe as consequências por tão longo tempo quanto tenha permanecido no mau caminho; desde que dê um passo em direção do bem, sente-lhe imediatamente os efeitos.
Nota - Seria um erro crer que, em virtude da lei do progresso, a certeza de chegar, cedo ou tarde, à perfeição e à felicidade, é um encorajamento para que persevere no mal, sob a condição de se arrepender mais tarde: primeiro, porque o Espírito inferior não vê o fim da sua situação; em segundo lugar, porque sendo o Espírito o artífice da sua própria infelicidade, acaba por compreender que depende dele fazê-la cessar, e que, quanto mais tempo persistir no mal, por mais tempo será infeliz; que o seu sofrimento durará se não lhe colocar um fim. Seria, pois, de sua parte, um cálculo falso, do qual seria a primeira vítima. Se, ao contrário, segundo o dogma das penas irremissíveis, toda a esperança lhe estivesse para sempre sustada, não teria nenhum interesse em se voltar para o bem, que lhe seria sem proveito.
Diante dessa lei, cai igualmente a objeção tirada da preciencia divina. Deus, criando uma alma, sabe, com efeito, em virtude do seu livre-arbítrio, se ela tomará o bom ou o mau caminho; sabe que será punida se fizer o mal; mas sabe, também, que esse castigo temporário é um meio para que compreenda seu erro e a faça entrar no bom caminho, onde chegará cedo ou tarde. Segundo a doutrina das penas eternas, sabe que falirá, e estará antecipadamente condenada a torturas sem fim.
(Allan Kardec-O Céu e o Inferno)
Nota: Estamos publicando os trinta e três artigos do Código Penal da Vida Futura em três partes, haja vista o seu tamanho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário