Remorso
Era um homem de meia idade, olhar sombrio e triste semblante, que me disse:
Padre, estamos sós?
Sim. Que quereis?
Quero confessar-me.
E por que me procurais e não a Deus?
Deus está bem longe e eu necessito de uma voz mais próxima.
E a vossa consciência não vos fala?
Precisamente por lhe ouvir é que vos venho procurar… Padre, ouvi-me, pois é obra de caridade dar conselho a quem pede.
Falai, então, e que Deus nos inspire.
Prestai-me toda atenção. Faz alguns meses, junto aos muros do cemitério de D…, foi encontrado o cadáver de um homem com o crânio espedaçado. Pesquisas fizeram-se em vão, para encontrar o assassino; ultimamente, porém, apresentou-se ao Tribunal de Justiça um homem que se confessou autor do crime. O juiz da causa sou eu e a lei o condena à pena última, atento à sua confissão. Não posso, contudo, condená-lo...
Por quê?
Porque sei que é inocente.
Como, pois se ele se confessa culpado?
Posso jurar e juro, não foi ele o assassino.
Como o sabeis?
Simplesmente porque o assassino… sou eu.
Vós?
Sim, Padre. É uma história longa e triste. Direi, apenas, que me vinguei por minhas mãos, dependendo do meu segredo a honra dos meus filhos; mas a consciência não pode, agora, transigir com a sentença capital de um homem por ela reconhecido inocente.
Acaso sofrerá o desgraçado de alienação mental?
Não, ele tem um cérebro perfeito. Apelei mesmo para recurso escapatório da loucura, mas a ciência médica desmentiu-me.
Não tenhais, portanto, remorso em condená-lo, pois os remorsos de outro crime o inspiram nessa resolução. Ninguém oferece cabeça à justiça sem que tenha sido um assassino… Conversarei com esse homem inditoso, dir-lhe-ei, para tranquilidade vossa.
Fui ouvir o infeliz; meus pressentimentos não me enganavam e, quando, na suprema hora lhe disse: “Fala que Deus te ouve”, ele, banhado em lágrimas, exclamou:
Padre, como é triste a existência do criminoso! Dez anos há que matei uma pobre moça e há tantos sua sombra me persegue! Ainda agora, aqui está ela entre nós dois! Casei-me, na persuasão de que, vivendo acompanhado, perderia o pavor que me definhava lentamente mas, quando acariciava minha esposa, eis que a outra se interpunha entre nós, a ocultar com o semblante lívido o semblante da minha companheira!...
Mas por que não confessaste o crime anterior?
Porque sobre ele não há provas convincentes. Tão habilmente pude ocultá-lo, que não ficou o mínimo vestígio. Ela aqui está parecendo olhar-me com menos rigor. Vede-a vós, Padre? Não? Ah! Que desejo tenho de morrer para não mais vê-la…
Ao subir ao patíbulo, acrescentou:
Lá está ela no lugar do carrasco… Padre, rogai a Deus para que não mais a veja após a morte, se é que os mortos veem na eternidade… Mas eu, meu Padre, quando e como descansarei?...
Um ano depois, o juiz entrava para um manicômio do qual não mais sairia, e eu… depositário de tantos segredos, testemunha moral de tantos crimes, confidente acabrunhado de tamanhas iniquidades - vivo opresso ao peso dos pecados humanos.
(Espírito Padre Germano-Memórias do Padre Germano-Amalia Domingo Soler)
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