sexta-feira, 27 de novembro de 2020

 A Linha Divisória do Razoável

Eu tenho um cachorrinho de poucos meses de idade, cujo pedigree registra o nome Peter, mas que eu apelidei Guaru, nome indígena que se dá a um peixinho de riacho, muito comum em nosso Estado de São Paulo. O guaru caracteriza-se por ter barriga proporcionalmente enorme, e também Peter, o cãozinho, parecia não tê-la menor. Peter come sua comida, em seguida devora a de seu pai Show-Time e come mais as folhagens da dona Geni, minha esposa. Depois de tanta comilança, não consegue andar. Dias atrás, colocamo-lo solto no quintal, na companhia de um coelho (chamado Malazarte por ser traquinas e endiabrado). Foi aquela humilhação para o coitado do Peter, que levou um baile de Malazarte, pois, sendo glutão e gordo, não poderia correr tanto quanto o coelho, nem saltar, nem virar-se.

Este “flash” serve de ilustração para aquilo que desejo exprimir. Sim, não é o peixe que morre pela boca, mas até mesmo os animais. Não uma, mas várias vezes, foi-me dado chegar perto de uma sucuri, talvez a maior cobra do mundo, que exageradamente dizem ser capaz de engolir um boi.

Quando me informaram que havia uma, enroscada perto de um covo, junto às raízes de uma figueira, à margem do Rio Grande, fui vê-la. De fato, a sucuri estava imóvel e, então, cercada de curiosos que blasonavam desse ofídio gigantesco. A situação deste espécime, que impõe medo aos pescadores do Pantanal, era a de um animal inerme, sem defesa, quase que morto. “Ela engoliu uma capivara” - disseram-me. “Agora vai ficar assim, sem se mexer, absolutamente inofensiva. Até as crianças podem fazer dela o que bem entenderem.” Entretanto, meus amigos pescadores não brincaram em serviço e mataram-na, sem qualquer heroísmo.

A natureza coloca um limite no uso que possamos fazer das coisas. Onde fica a linha divisória do razoável ou não, daquilo que está na medida ou fora dela, do equilíbrio ou do desequilíbrio, do gozo ou da extravagância, do amor ou da paixão, da posse ou da avareza, depende da sensibilidade pessoal e do bom senso. Quando um cidadão enriquece de repente, ganhando o primeiro prêmio da loteria, poderá isto constituir-se num grande mal. Também na maternidade, sempre reverenciável, há problema quando as mães são excessivamente dedicadas. Se fazem a lição dos filhos, tiram-lhes da frente todos os obstáculos, limpam o chão onde pisam, não admitem que briguem um pouco com os colegas ou se expressem como lhes manda o impulso, colocam-nos a salvo da acrimônia de certos mestres, exprobam aqueles que lhes chamam a atenção, propiciam-lhes montanhas de brinquedos prontos e acabados, estão tirando os rebentos fora da vida. A vida é desafio. Toynbee chega a dizer que a civilização se processa diante do desafio constante.

A alternância entre o calor e o frio acelera a circulação e torna mais rígidos os músculos do corpo. Todos os dias, nosso corpo está sendo desafiado e sobrevive. O próprio chamado equilíbrio ecológico provém dessa regra. Se o mar parasse, ficasse feito um lago tranquilo no qual pudéssemos viajar sem sobressaltos, sem o fluxo e o refluxo da maré, das ondas gigantes, ou sem a presença indesejável  dos ventos tempestuosos, revolvendo-o e levando-o a se arrebentar nos costões de granito, ele estagnaria, acabaria morrendo e todos nós morreríamos, inapelável e lentamente. 

Numa interpretação, digamos assim, teológica kardecista, a Terra é uma escola. Eu diria que é uma Escola Pestalozziana, em que as lições têm que ser aprendidas e vividas. Para que se preste exatamente à sua missão transcendente no Cosmos, a luta pela vida não nos dá sossego, desde o primeiro vagido na maternidade, até o desencarne. O positivo eo negativo revezam-se e destroem-se aparentemente, pois seria uma falha inaceitável de Deus, o Absoluto e Onisciente, permitisse que o feito, realizado, evolucionado, acabasse zerado. Quando o homem morre, seu corpo é logo atacado e começa a ser destruído, antes mesmo de baixar ao túmulo, mas essa antítese destruidora existe apenas para provocar uma síntese, o renascimento em estágio superior vivencial. O Espírito do Homem sai daquele caos virulento, em expressão mais sutil, alguns até mesmo brilhando como Jesus na ressurreição.

Essa é uma das leis naturais que governam o mundo que, automaticamente, desde as galáxias até os seres mais rudimentares, reequilibram-se ou têm suas energias todas aproveitadas para um estágio melhor, mais avançado e mais elevado. Pode o sistema doer-nos muito e custar-nos muitas lágrimas, mas estamos, dessa forma, voltando ao Pai, que é Luz e Vida. 

(Mário B. Tamassía-A Flauta do Grande Espírito) 


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